Mirtilo: curiosidades, variedades e por que vale ter no freezer
· @Ellisä
Pequeno, azul-escuro e com uma camada esbranquiçada na casca, o mirtilo ganhou fama de superalimento. Ele aparece em smoothies, bowls, iogurtes e bolos, e mesmo sendo uma fruta ainda recente no Brasil, o consumo só cresce. Mas o que há de verdade por trás da fama? E por que a maior parte das pessoas encontra mirtilo congelado com mais facilidade (e por preço mais acessível) do que fresco?
A resposta passa pela origem da fruta, que não é tropical: o mirtilo é uma planta de clima temperado, que precisa de frio no inverno e de solo ácido, e por isso a produção brasileira ainda é pequena e concentrada em poucas regiões.
Neste artigo, você vai conhecer a história do mirtilo, curiosidades, o que se sabe sobre suas antocianinas, os principais tipos e variedades, a produção no Brasil e os cuidados com a conservação.
De onde vem o mirtilo
O mirtilo (gênero Vaccinium, da família das ericaceas) tem como centros de origem a Europa e a América do Norte, onde é uma fruta de grande importância econômica. O gênero reune cerca de 450 espécies. Em inglês, a fruta se chama blueberry, e em espanhol, arándano. Blueberry e mirtilo são, portanto, a mesma fruta.
No mundo, há três grandes grupos cultivados comercialmente: o lowbush (arbustos baixos), o highbush (arbustos altos) e o rabbiteye, ou olho-de-coelho, nome que vem da cor vermelha dos frutos ainda imaturos. A produção comercial está em franca expansão na América do Sul, com destaque para o Chile, motivada em boa parte pela demanda da entressafra dos países do hemisfério norte.
No Brasil, a história é recente. O mirtilo foi introduzido em 1983 pelo pesquisador Alverides Machado dos Santos, da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas (RS), a partir de plantas vindas da Universidade da Flórida. A espécie trazida foi a Vaccinium ashei, o rabbiteye, que exige menos frio. Depois, a partir de 1990, produtores de Vacaria (RS) passaram a plantar também o highbush (Vaccinium corymbosum), mais exigente em frio, mas capaz de dar frutos maiores e de sabor mais próximo do padrão dos grandes mercados consumidores.
8 curiosidades sobre o mirtilo
- Mirtilo e blueberry são a mesma fruta. A diferença está só no idioma.
- A cor azul tem duas explicações. Os pigmentos chamados antocianinas dão o tom escuro à casca, e uma camada de cera, chamada pruna, cria o aspecto azulado e esbranquiçado por fora.
- O apelido é "olho-de-coelho". O grupo rabbiteye recebeu esse nome por causa da cor vermelha dos frutos antes de amadurecerem.
- O mirtilo chegou ao Brasil em 1983. A primeira coleção veio dos Estados Unidos e foi plantada em Pelotas (RS).
- A planta exige solo ácido. O mirtilo cresce melhor em solos com pH entre 4,5 e 5,2, ricos em matéria orgânica e bem drenados, e precisa de horas de frio no inverno.
- A safra brasileira vai de novembro a abril, segundo a Embrapa, no período mais quente do ano.
- O fruto é minúsculo. Mede de 1 a 1,6 cm de diâmetro e pesa, em média, cerca de 1,3 g.
- O arbusto pode passar de 3 metros. As plantas do grupo rabbiteye são vigorosas e chegam a até 4 metros de altura.
Antocianinas e outros nutrientes: o que se sabe
A grande estrela do mirtilo são as antocianinas, pigmentos com ação antioxidante que dão a cor azul-arroxeada à fruta. Além delas, o mirtilo tem outros compostos fenólicos, vitamina C, fibras e baixo valor calórico.
Algumas informações importantes:
- A casca concentra a maior parte. Em análises feitas na UFPel, a casca teve de longe os maiores teores de antocianinas, e a polpa, quase nada. Por isso, vale comer o mirtilo com casca.
- Os teores variam muito. Dependem da variedade, do clima, do ponto de maturação na colheita, do armazenamento e do processamento. Estudos da Embrapa mostram que o grupo rabbiteye, mais adaptado ao Brasil, costuma ter teores maiores de compostos fenólicos do que o highbush Bluecrop.
- Os benefícios ainda estão em estudo. Há pesquisas associando o consumo regular de mirtilo à saúde do coração, do cérebro e do controle do açúcar no sangue, mas parte dos resultados vem de estudos de laboratório, e não dá para atribuir a uma única fruta efeitos milagrosos.
O mirtilo é um ótimo item de uma alimentação variada. A quantidade ideal para cada pessoa é assunto para conversar com um nutricionista.
Tipos e variedades de mirtilo
A Embrapa divide os mirtilos cultivados no Brasil em dois grupos principais, cada um com seu perfil.
- Rabbiteye (Vaccinium ashei): o grupo mais adaptado ao clima brasileiro, por ser mais rústico, vigoroso e menos exigente em frio. Os frutos são menores, mas a planta produz mais e a fruta se conserva melhor depois da colheita. As principais variedades são Climax, Bluegem, Powderblue, Briteblue, Delite, Woodard, Bluebelle e Aliceblue.
- Highbush (Vaccinium corymbosum): mais exigente em frio, com frutos maiores e sabor mais próximo do padrão dos grandes mercados. Entre as variedades estão Bluecrop, Coville e Darrow. Mais recentemente chegaram as do tipo southern highbush, como Misty e O'Neal, que precisam de menos frio.
A necessidade de frio é o que decide onde cada uma pode ser plantada. As do grupo rabbiteye se adaptam a regiões com cerca de 300 a 650 horas de frio por ano, enquanto as highbush tradicionais pedem regiões mais frias e geralmente mais altas, de cerca de 650 a 800 horas.
O Brasil ainda tem poucas variedades recomendadas, e a Embrapa Clima Temperado mantém, desde a década de 1980, um programa de melhoramento genético para desenvolver cultivares adaptadas ao país.
Produção no Brasil, escolha e conservação
O Brasil ainda é um pequeno produtor de mirtilo, e as estatísticas oficiais são escassas. A produção se concentra nos estados do Sul, com o Rio Grande do Sul como principal produtor, e em regiões altas de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais, onde há horas de frio suficientes. Por causa disso, parte relevante do mirtilo vendido no país ainda é importada, o que ajuda a explicar o preço alto da fruta fresca.
A fruta fresca também exige cuidado. O mirtilo é colhido maduro, e a Embrapa registra que, em refrigeração controlada a 0 °C, ele pode ser mantido por até 21 dias sem perdas significativas de qualidade. Em casa, sem esse controle, a duração é bem menor.
Como escolher e conservar o mirtilo fresco:
- Prefira frutos firmes, de cor azul-escura uniforme e com a camada esbranquiçada preservada.
- Evite embalagens com frutos amassados, murchos ou com mofo.
- Guarde na geladeira, sem lavar, e lave só na hora de consumir.
- Consuma em poucos dias.
Para ter mirtilo sempre à mão, o congelamento é a solução mais prática.
Mirtilo congelado: por que vale a pena
O mirtilo congelado costuma ser colhido bem maduro, quando a fruta está no melhor ponto, e congelado logo depois. Assim ele chega até você sem passar pelo tempo de prateleira da fruta fresca, com sabor e cor preservados, o ano todo e muitas vezes por um preço melhor.
Para quem usa em smoothies, bowls, iogurtes, bolos e sobremesas, a fruta congelada tem outra vantagem: ela já vem pronta, sem precisar lavar nem selecionar, e você usa só a quantidade que precisa.
Um detalhe honesto: o congelamento não mantém tudo igual para sempre. Um estudo brasileiro com mirtilo congelado a -18 °C registrou queda das antocianinas ao longo de seis meses, embora a atividade antioxidante da fruta congelada ainda estivesse acima da fruta fresca. Por isso, vale respeitar a validade da embalagem e não descongelar e congelar de novo.
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Perguntas frequentes sobre o mirtilo
Mirtilo e blueberry são a mesma coisa? Sim. Blueberry é o nome em inglês da mesma fruta.
Mirtilo congelado é tão bom quanto o fresco? Ele é colhido maduro e congelado logo depois, e por isso costuma ser uma ótima opção. Como há perda gradual de antocianinas ao longo do tempo de estoque, o ideal é consumir dentro da validade.
Precisa descongelar para usar? Não. Para smoothies e bowls, pode ir direto do freezer. Para bolos e muffins, muita gente usa congelado mesmo, sem descongelar.
Por que o mirtilo fresco é tão caro? A produção brasileira ainda é pequena, a planta exige frio e solo ácido, e parte da fruta fresca vendida no país é importada.
Vale comer com casca? Sim. É na casca que fica a maior parte das antocianinas.
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Fontes
- Embrapa Clima Temperado: Cultivo do mirtilo (Sistema de Produção 8, 2006); O cultivo do mirtilo (Documentos 96, 2002); Documentos 526 (2022) sobre melhoramento genético.
- Embrapa Uva e Vinho / Embrapa Clima Temperado: Mirtilo, aspectos gerais da cultura; artigos técnicos sobre a introdução e as cultivares no Brasil.
- Embrapa Clima Temperado: compostos bioativos e atividade antioxidante em mirtilos (Comunicado Técnico 267).
- Revista Cultivar: artigos sobre cultivares e exigência de frio do mirtilo.
- UFPel: antocianinas na casca e na polpa do mirtilo; estabilidade de antocianinas e conservação.
- Estudo sobre estabilidade de compostos bioativos de mirtilo no congelamento e no processamento (repertório Agris/FAO).
- Hortifruti Brasil (Cepea/Esalq) e Emater-RS: panorama da produção e do mercado de mirtilo.
