Caju: curiosidades, variedades e por que vale ter no freezer
· @Ellisä
O caju é uma fruta que engana: aquilo que a gente chama de caju, de casca amarela ou vermelha e polpa suculenta, nem é o fruto de verdade. O fruto é a castanha, aquela que pende lá embaixo. A parte que a gente come e transforma em suco, doce e cajuina é um pseudofruto. E tem mais: o Brasil é o país de origem da planta, mas ainda aproveita só uma pequena parte desse pseudofruto, porque ele estraga em questão de horas.
Essa combinação de sabor marcante, muita vitamina C, travo de tanino e vida curta explica muita coisa sobre o caju: por que ele quase não viaja fresco, por que a maior parte vira polpa ou suco e por que congelar é a forma mais prática de ter caju o ano todo.
Neste artigo, você vai conhecer a origem do caju, curiosidades, o que dizem os números sobre vitamina C e tanino, os tipos de cajueiro, a produção no Brasil e os cuidados com a conservação.
De onde vem o caju
O cajueiro (nome científico Anacardium occidentale) pertence à família das anacardiáceas, a mesma da manga. Segundo a Embrapa, a provavél origem da espécie é o Brasil, ou ao menos o norte da América do Sul e parte da América Central. O gênero Anacardium tem seus centros de origem na região amazônica e nos cerrados, e a maior diversidade da espécie cultivada aparece no Nordeste brasileiro.
Os povos nativos já usavam o caju de várias formas, tanto o pseudofruto in natura quanto a castanha. Depois da chegada dos europeus, a planta foi levada para a Índia e a África, onde se adaptou muito bem. Em Goa, na Índia, por exemplo, as bebidas destiladas feitas do pseudofruto viraram uma tradição local. Hoje o cajueiro está espalhado por praticamente todo o mundo tropical.
O caju é formado por duas partes. A castanha, em formato de rim, é o fruto verdadeiro, e de dentro dela sai a amêndoa que a gente conhece como castanha-de-caju. O pedúnculo, que é a parte suculenta de cor amarela, laranja ou vermelha, é o pseudofruto: uma haste da flor que engrossa e vira essa polpa carnosa, que mede de 5 a 11 cm e pesa, em geral, de 40 a 80 g.
8 curiosidades sobre o caju
- O caju é um falso fruto. O fruto de verdade é a castanha, e a parte que a gente come, o pedúnculo, é um pseudofruto.
- A castanha tem formato de rim. Seca e torrada, ela dá origem à amêndoa da castanha-de-caju.
- A parte comestível é quase tudo. O pedúnculo responde por cerca de 90% do peso do caju (pedúnculo mais castanha), segundo a Embrapa.
- O Brasil é quase o único a aproveitá-lo. Entre os grandes produtores de castanha, o Brasil é o país que aproveita o pedúnculo de forma significativa, em sucos, doces e cajuina. Mesmo assim, estima-se que só de 10% a 20% da produção no Nordeste seja industrializada.
- O Ceará lidera. O estado responde por cerca de 6 em cada 10 castanhas produzidas no país.
- 2024 foi ano de recorde. O Brasil colheu 161.014 toneladas de castanha, a maior safra desde 2018, segundo o IBGE.
- A árvore pode ser enorme. O cajueiro comum chega a 20 metros, e por isso é chamado de gigante, embora o mais comum seja entre 8 e 15 metros.
- Existe o cajueiro-anão. Desenvolvido pela Embrapa, ele é de menor porte, mais produtivo e mais fácil de colher.
Vitamina C, tanino e o travo do caju
O pedúnculo do caju é considerado uma das melhores fontes de vitamina C entre as frutas. A Embrapa cita cerca de 270 mg por 100 g de polpa, quase cinco vezes o teor da laranja. Os valores, porém, variam bastante conforme o tipo de cajueiro, o solo, o clima e o ponto de maturação, e estudos com outros materiais encontram números menores. Por isso, o mais honesto é falar em uma faixa, e não em um valor único.
E o travo? A sensação de "prender a boca" do caju vem dos taninos, que fazem do pedúnculo uma fruta de alta adstringência. O tanino é um composto fenólico, com ação antioxidante, mas deixa o caju menos agradável para quem não está acostumado. Na produção da cajuina, por exemplo, o suco é clarificado e boa parte do tanino é retirada. Pesquisadores da UFC chegaram a reduzir cerca de 79% do tanino do suco com tecnologias a frio, que preservam a vitamina C.
Outros nutrientes. O caju também traz minerais como ferro, cálcio, fósforo e potássio, além de compostos fenólicos e açúcares naturais. É uma fruta de sabor intenso e baixa acidez.
Como toda fruta, o caju faz parte de uma alimentação variada. Para saber a quantidade ideal para cada pessoa, o melhor caminho é conversar com um nutricionista.
Tipos de cajueiro e clones
Das espécies de cajueiro, apenas dois tipos são explorados comercialmente, e os dois pertencem à mesma espécie, a Anacardium occidentale.
- Cajueiro comum (gigante): árvore alta, que pode chegar a 20 metros, mas costuma ficar entre 8 e 15 metros. A maior parte dos pomares antigos é de material comum não selecionado, o que gera muita variação de tamanho, sabor e produtividade.
- Cajueiro-anão precoce: de menor porte, começa a produzir mais cedo e tem frutos mais uniformes, o que facilita a colheita e o aproveitamento do pedúnculo.
A Embrapa Agroindústria Tropical mantém um programa de melhoramento genético que lançou vários clones. Os primeiros do tipo anão precoce foram o CCP 06 e o CCP 76, em 1983, seguidos pelo CCP 09 e pelo CCP 1001, em 1987, e pelo Embrapa 50 e 51, em 1996. Depois vieram o BRS 189, o BRS 226 (conhecido como Planalto, indicado para o plantio de sequeiro no semiárido), o BRS 253 e o BRS 265. Em 2007 chegaram o BRS 274, primeiro clone de cajueiro comum, e o BRS 275, um híbrido entre comum e anão.
O CCP 76 é o clone mais plantado e o mais usado para o caju de mesa. Em 2025, a Embrapa apresentou ainda uma nova cultivar, a BRS 805, com produtividade de pedúnculo superior à do clone de referência.
Produção no Brasil e por que o caju estraga tão rápido
A cajucultura é uma das atividades mais importantes do semiárido nordestino. O Nordeste responde por praticamente toda a produção nacional, e Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte lideram, nessa ordem. Em 2024, foram 161.014 toneladas de castanha no país, e a produção de pedúnculo é ainda maior: só no Ceará, em 2022, foram 818.569 toneladas.
O problema é o que acontece depois da colheita. O pedúnculo é um dos produtos de metabolismo mais ativo que existem, com taxa de respiração muito alta, e em temperatura ambiente dura apenas de 24 a 48 horas, segundo a Embrapa. Depois disso, enruga, fermenta e perde atrativo. Os danos mecânicos, como queda e amassamento, também estão entre as principais causas de perda.
Com refrigeração a 5 °C e alta umidade, a vida útil pode chegar a cerca de 20 dias em condições de pesquisa, e a duração varia conforme o clone. Em casa, sem esse controle, o caju fresco precisa ser consumido rápido.
Como escolher e conservar o caju fresco:
- Escolha frutas firmes, de cor viva e sem partes moles ou machucadas.
- Guarde na geladeira assim que chegar em casa.
- Consuma em até poucos dias.
- Se não for usar logo, congele.
Por causa dessa perecibilidade, a maior parte do pedúnculo vira suco, polpa, doce e cajuina, em vez de chegar fresco ao consumidor.
Caju congelado: o jeito mais prático de ter caju o ano todo
Para um fruto que dura de 24 a 48 horas depois de colhido, o congelamento é o melhor aliado. O caju é colhido maduro e processado logo em seguida, o que preserva o sabor, o aroma e boa parte da vitamina C, e permite ter caju em qualquer região do país, em qualquer época do ano.
O caju congelado costuma chegar em dois formatos, e vale conhecer a diferença entre eles:
- Fruta congelada: o pedúnculo do caju, inteiro ou em pedaços, congelado sem nenhuma adição. É a fruta em estado puro, ideal para quem quer controlar o preparo e a textura.
- Polpa congelada: o pedúnculo processado e pronto para uso, que vem em porções e vai direto ao liquidificador. É a que mais rende tempo, e é o único formato em que pode haver adição de água, conforme a marca. Por isso vale sempre ler o rótulo e comparar o rendimento.
Os dois combinam com suco, vitamina, sorvete, geleia, caipirinha e outras bebidas, e quem trabalha com o produto ganha em estoque e em padrão: a mesma qualidade na safra e na entressafra.
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Perguntas frequentes sobre o caju
Qual é o fruto do caju, a castanha ou a parte suculenta? O fruto verdadeiro é a castanha. A parte suculenta é o pedúnculo, também chamado de pseudofruto ou falso fruto.
Caju tem mais vitamina C do que a laranja? Sim. A Embrapa cita cerca de 270 mg por 100 g de polpa, contra cerca de 50 mg da laranja. O valor varia conforme o tipo de cajueiro e a maturação.
Por que o caju "prende" a boca? Por causa dos taninos, compostos fenólicos que causam a adstringência. Eles diminuem no processamento, como na cajuina, e têm ação antioxidante.
Caju congelado perde vitamina C? O congelamento retarda as perdas e preserva boa parte do nutriente, mas há queda gradual ao longo do tempo. Vale respeitar a validade e não descongelar e congelar de novo.
O que é cajuina? É um suco de caju puro e clarificado, sem adição de açúcar e conservantes, tradicional no Nordeste, especialmente no Piauí.
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Fontes
- Embrapa Agroindústria Tropical: informações sobre origem, botânica, clones (CCP 76, BRS 189, BRS 226, BRS 274, BRS 275, BRS 805), composição do pedúnculo e pós-colheita do caju. www.embrapa.br
- IBGE: Produção Agrícola Municipal (castanha de caju, safra 2024) e Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (pedúnculo, Ceará, 2022). www.ibge.gov.br
- Universidade Federal do Ceará (UFC): pesquisas sobre redução de tanino em suco de caju com tecnologias a frio. www.ufc.br
